Entrevista com Julio Cesar Fernandes, jogador do Ytterhogdals IK da Suécia

Julio Cesar Fernandes – Quando um jogador sai do Brasil e vai jogar na Europa, muitos acham que ele tirou a sorte grande, pois automaticamente vem à cabeça que estão ricos e a sua vida está fácil.

Além disso, “Jogar na Europa” é um termo que, para muitos, se resume a atuar nos grandes centros como Inglaterra, Alemanha, Espanha,Itália, Portugal, Holanda, etc…

A entrevista com Julio Cesar Fernandes, curitibano, meia do Ytterhogdals IK das divisões de acesso da Suécia nos dá a noção que nem todos os jogadores que vão para o velho continente estão em grandes centros, ricos e rodeados por um staff.

Dificuldade em imergir na cultura, perdas significativas, passar mal no treino após uma longa viagem , boas mentiras e solidão na pandemia nortearam o nosso bate papo com o atleta que gentilmente nos brindou com um choque de realidade para os que acham que ser jogador é ter uma vida fácil.

Olá Julio, muito obrigado por falar com a gente. Fala do seu início, sendo de Curitiba, você chegou a treinar no Coxa, Atlético PR ou Paraná?

“Treinei no Paraná, mas foi depois de eu jogar no Cerâmica do Rio Grande do Sul, que foi o primeiro clube que eu joguei na base. Antes disso, fiquei na escola de futebol Tostão, que é um ídolo do Coxa, em Curitiba. Lá eu treinei com ele e os jogadores para fazer o teste no Cerâmica.”

“Depois do Cerâmica, voltei para Curitiba e fiquei treinando no Paraná por algumas semanas, em 2014, mais ou menos. Depois disso, fui com o Tostão fazer alguns amistosos contra times de São Paulo e Minas Gerais: Palmeiras, Bragantino, Cruzeiro e Atlético Mineiro.”

“Foi aí que surgiu a oportunidade de ir para o Bragantino, onde me apresentei em janeiro de 2015. Fiquei até outubro, joguei o Paulista. Tive uma passagem muito boa, joguei muito bem, mas tive alguns problemas com um diretor e saí do clube, porque a base era terceirizada e eles já tinham seus jogadores.”

“Quando saí do Bragantino, fui para o Arapongas, onde joguei a Copa São Paulo. Depois, para o  Apucarana , onde me profissionalizei e joguei alguns meses o Campeonato Paranaense. Depois fui para o Júnior Team.”

Aí vem a primeira aventura do Julio fora do Brasil.

“No Júnior Team, joguei o paranaense sub-19 e o profissional. Foi o ano que mais me destaquei: marquei 10 gols em 15 jogos no estadual e apareceram algumas coisas.”

“Depois disso, fui para o Iraty, onde houve alguns problemas com a federação, que atrasaram o campeonato. Por isso, só treinei por alguns meses e saí para aproveitar uma oportunidade na Coréia. Acho que fiquei um mês e meio lá, mas não deu muito certo e um empresário arranjaria um clube da segunda divisão do Brasileiro, o que acabou não acontecendo.”

E como surgiu a oportunidade de ir atuar no IFK Mariehamn da Finlândia?

“Um empresário da Suécia disse que havia um time finlandês interessado em mim, só que faziam dois meses que eu estava parado e pensando em parar de jogar, pois não tinha oportunidades. Cheguei a jogar por alguns times, mas sempre havia algum problema com o treinador, por não me encaixar no sistema tático ou pelo elenco já estar cheio.”

Julio Cesar Fernandes atuando pelo Mariehamn.
Julio Cesar Fernandes atuando pelo IFK Mariehamn.

“Me chamaram para treinar por uma semana lá, mandaram passagem e pagaram o hotel. No primeiro dia de treinamento, eu tinha voado umas 20 e poucas horas, cheguei por volta de meia-noite no hotel, na Suécia, e acordei às seis, para pegar o barco e ir para a Finlândia.”

“Cheguei uma hora da tarde e o treino era às duas e meia, mais morto que o normal e acabei passando mal no final do treino. Vomitei muito faltando uns 10 minutos para acabar, porque eu estava exausto, fora de forma e tinha comido no barco.”

Localização da Ilha de Åland, onde se localiza a cidade de Mariehamn.
Localização da Ilha de Åland, onde fica a cidade de Mariehamn.

“Eu nunca tinha andado de barco e fiquei enjoado. Nessa hora, me passou pela cabeça: “Estava tão bem, agora f****. Passei mal e vomitei aqui, os caras vão achar que sou morto.” Mas eles gostaram e acharam que era por causa da viagem, fuso horário e o barco. “

“Então, acabaram olhando mais a parte técnica e habilidades, não olharam muito a parte física, porque sabiam que o time estava em final de temporada voando e eu tinha acabado de chegar.”

E para a felicidade de Julio, o seu talento prevaleceu, inclusive ele também nos falou que havia mentido, quando perguntaram se ele estava em forma para ir fazer o teste.

“Eles falaram: “O Julio tem técnica, mas está fora de forma, então vamos mandar ele ir para casa e voltar em dezembro, para começar a pré temporada”..”

Quando voltei para o Brasil treinei todos os dias e cheguei voando no IFK. Nos primeiros jogos marquei 5 gols. Cheguei bem! Eles eram os atuais campeões da Finlândia, estavam com um elenco muito bom.”

E como foi seu período no IFK Mariehamn? Não apenas dentro de campo, mas viver numa pequena ilha, idioma diferente, frio, perrengues?

“Nossa, foi um período bom. O treinador era o Lunds (Peter Lundberg) e Peter Mattsson, o diretor. Os caras eram muito bons e profissionais. O clube era totalmente organizado, estrutura top.”

Peter Lundberg e Peter Mattsson
Peter Lundberg e Peter Mattsson foram essenciais na adaptação de Julio.

“Cheguei lá sem saber falar inglês, não conversava com ninguém, só treinava e fazia mímica. No começo foi difícil. Peguei um inverno frio pra caramba, que eu nunca tinha pegado. A ilha é pequena, não tem muito o que fazer, mas a cidade é bonita, o verão é muito bom. Até que me adaptei rápido. Não sou um cara que vejo problema no frio.”

“Lá o inverno é frio pra caramba e o verão é calor pra caramba. Eu treinava com 32º, 33º. O clube me deu oportunidade de aprender inglês, fazendo alguns cursos, os jogadores e o treinador me ajudavam. Tinha um jogador espanhol que me ajudou também..”

Julio Cesar Fernandes
Julio Cesar Fernandes se adaptou bem à Finlândia.

“Consigo me adaptar rápido aos lugares, sem problemas. A cultura finlandesa é diferente. Eles são mais sérios, mas todos me tratavam bem no clube. Não tinha problema com ninguém.”

Algum perrengue?

“Uma vez a gente tinha treino no domingo, acabei não acordando para ir treinar e o Peter (Mattsson) veio bater na minha porta e me levar, para que eu não me atrasasse. Tiveram alguns fora de campo também, com um brasileiro que conheci por lá, que saíamos bastante e conversávamos.”

E do IFK você vai para a vizinha, Suécia, jogar no Gefle IF. Como surgiu a proposta da Suécia?

“Na época, me mudar para a Suécia foi bem complicado, porque no IFK eu até estava bem, cheguei a fazer alguns gols, só que não tive muitas oportunidades no final do ano e meu empresário achou melhor tentar ir para a Suécia, para tentar um time melhor e ter mais visibilidade. Na Suécia, cheguei a treinar e joguei um amistoso por um time da segunda divisão, Jönköpings Södra , mas não houve acordo.”

Julio treinando com o Jönköpings Södra
Julio Cesar Fernandes treinando no Jönköpings Södra.

“Como eu já estava na Suécia, fui treinar com o Gefle IF, onde fiquei por duas semanas. Eles quiseram me contratar, mas primeiro, queriam me ver em um amistoso contra o rival Gif Sundsval, da primeira divisão. Eu entrei no segundo tempo com o time com um a menos e perdendo de 2×0, fiz um gol e joguei bem, por isso assinei com eles para jogar uma temporada.”

Notou alguma diferença entre Suécia e Finlândia?

“Finlândia e Suécia são muito parecidas: a cultura e o jeito, porque Mariehamn fica a 2 horas da Suécia, então era uma cidade mais sueca do que finlandesa e eu não cheguei a ir a outras cidades da Finlândia. A cultura e o estilo de jogo são quase iguais, óbvio que na Suécia tem muito mais qualidade, mas o país e o ambiente de jogo são parecidos.”

Julio Cesar Fernandes com a camisa do Gefle IF.
Julio Cesar Fernandes com a camisa do Gefle IF.

“Gävle é uma cidade muio boa, não tão grande quanto a capital Estocolmo, mas tudo o que você precisar tem na cidade. Ela é muito tranquila. Até que foi um período melhor, pois haviam jogadores mais novos e de fora da Europa, tinha gente da Costa Rica, Congo… nós saíamos muito na folga e nos dávamos muito bem.”

Algumas imagens da cidade de Gävle.
Algumas imagens da cidade de Gävle.

E dentro de campo?

“Não muito bom porque eu tive muita dificuldade em me encaixar no estilo de jogo do treinador, treinava e jogava bem, mas não encaixava no que ele queria, cheguei a jogar algumas partidas vindo do banco e outras titular.”

Mas houve, sim, um momento mágico que Julio nos descreveu com emoção: o atleta jogou o derby com o Sandvikens que não acontecia a 33 anos e ele quase entrou para história.

“O derby que a gente jogou foi uma das coisas mais emocionantes na minha carreira. Estádio lotado com 6 mil pessoas, foguete, sinalizador, bomba de fumaça, as duas torcidas gritando e cantando. Foi uma experiência muto top. Perdemos o jogo de 1×0, um jogo bom, onde tivemos muitas chances. Quase fiz um gol de bicicleta nos últimos minutos, mas o goleiro defendeu.”

O lance falado pelo Julio está bem no início do vídeo acima que mostra os lances da carreira dele.

E depois do Gefle IF ?

“Tinha dois anos de contrato com a opção de ficar ou sair, só que o treinador e o diretor foram demitidos, não tinha resposta de contrato e vim de férias para o Brasil em dezembro.”

“Na pré temporada, em março, nós jogamos um amistoso contra o time que eu estou agora, o Ytterhogdals. Nós ganhamos de 6×1 e eu fiz quatro gols. Aí o auxiliar daqui que virou treinador principal perguntou se eu queria jogar no clube, falei que sim, pois não tinha aparecido muita coisa concreta.”

E como está sendo o seu período no Ytterhogdals IK?

“É uma cidade muito pequena, não tem nada pra fazer, cheguei aqui em fevereiro e treinei um mês. Acabou vindo o coronavírus e parou tudo. Tive que ficar por aqui porque eu era o único que não era da região da Europa. Fiquei três meses sozinho, sem treinamento porque todos os jogadores foram embora, foi bem difícil.”

Escudo do Ytterhogdals IK.
Escudo do Ytterhogdals IK.

E ainda ficaria pior…

“Ainda mais que algumas semanas depois que parou o corona, meu pai faleceu no Brasil. Foi muito difícil pra mim, ainda sofro com isso, mas está tudo certo agora. Eu cheguei a fazer alguns treinos sozinho, mas não tinha muita vontade porque eu estava sozinho num lugar muito longe. Agora acabou trocando o treinador e o elenco inteiro, só sobramos eu e acho que mais dois do antigo time. Os treinamentos já voltaram há um mês, agora tenho coisas para ocupar a cabeça.”

Julio Cesar Fernandes atuando pelo Ytterhogdals IK.
Julio Cesar Fernandes atuando pelo Ytterhogdals IK.

“Já jogamos alguns amistosos e teve a estreia do campeonato. Nosso time só treinou uma semana devido a problemas com passagens e data. Treinamos uma semana antes da estreia, saímos ganhando de 2×0, mas perdemos de 3×2. Eu marquei um gol na estreia e fui capitão. Agora em julho tem a parada do verão e estamos treinando forte para chegarmos firmes em agosto para ganharmos a liga.”

Agora, falando do Covid, como que está sendo o protocolo aí na Suécia?

“Aqui na Suécia as coisas estão normais faz tempo, lojas, restaurantes e mercados. Há um tempo atrás eu fui na capital e estava tudo funcionando normal. No futebol, só podem 50 pessoas no estádio, pelo menos aqui na nossa divisão. Não tem muitos casos. Os treinamentos e amistosos são com protocolos de segurança, sem muito toque com os adversários ou juiz antes do jogo.”

A gente agradece muito ao Julio Cesar Fernandes por ter batido um papo e falado um pouco mais da sua experiência no futebol escandinavo e desejamos muita sorte na continuação da sua carreira. Caso você queira segui-lo, vamos deixar o seu Instagram aqui em embaixo!

https://www.instagram.com/fernandesjc7_/

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